segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dia Mundial da Sida

Há muitos casos de Sida por notificar


Machado Caetano diz que situação do país é lamentável
Há muitos casos de Sida por notificar
Jornal da Madeira — Recentes estudos indicavam que Portugal é um dos países com uma das maiores taxas de novas infecções, pelo menos a nível europeu. Como é que estamos em relação à Europa e, já agora, em relação ao Mundo?Machado Caetano— É com o maior pesar que tenho que responder que, de facto, Portugal, em termos de país evoluído e europeu, tem das taxas mais elevadas de seropositivos e de SIDA. Tirando a Estónia, somos o país com maior incidência e com maior número de casos de SIDA por 100 mil habitantes. É muito difícil falar de números sem sublinhar que existe uma subnotificação muito grande. Os médicos continuam, a nível nacional, a não relatar todos os casos de SIDA, ainda que tenha passado a ser um dever, uma obrigação dos médicos. Há uma carência de informação real, que atinge, provavelmente, milhares de casos que não são relatados. No país, à data de Junho deste ano, contavam-se 33.800 casos de infecção VIH, com um número de casos de SIDA propriamente dita de 14.600 casos. Na Madeira, o número global de casos de infectados, referenciados até Junho deste ano, atinge os 395 casos de infecção, dos quais 138 já com SIDA. Nos Açores são 240 casos de infecção, dos quais 89 já com SIDA.A situação em Portugal é lamentável. As três grandes cidades mais afectadas são Lisboa, Porto, Santarém e depois, as cidades que têm ambiente universitário. Onde há universidades costuma haver mais juventude, há muito mais liberalização sexual e aparecem muitos mais casos. Podemos dizer que, de facto, progredimos em muitas coisas, mas no que diz respeito à informação sanitária da população no que diz respeito à luta contra as doenças sexualmente transmissíveis e particularmente a SIDA, os resultados são muitíssimo insuficientes. De pequenino é que se torce o pepino e nós não estamos a aproveitar aquilo que seria o mais indicado, que é investir fortemente na educação para a Saúde, para a sexualidade e na educação cívica dos jovens. Os nossos jovens têm de chegar aos 12 anos com uma preparação que lhes dê a capacidade de não escorregarem para as grandes ratoeiras da civilização contemporânea, que é ver muitos filmes, fumar, beber bedidas alcoólicas. Hoje em dia a taxa de alcoolismo nos jovens é elevadíssima. Sabemos que ao fim-de-semana os jovens muito novinhos já se embriagam regularmente. E não bebem para se alegrar ou divertir. Bebem para ficar bêbados. Portanto, isso condiciona uma série de comportamentos de criminalidade, de comportamentos sexuais de alto risco.Alterações nos infectadosEm Portugal, tal como noutros países, tem havido uma evolução de quem é que se deixa infectar. Cada vez vemos que são menos toxicodependentes e mais heterossexuais, mais mulheres, mais jovens e mais idosos. Estamos a ver cada vez pessoas mais velhas a aparecer infectadas, mercê de toda uma série de novas práticas sexuais com estimulantes — Viagras e outras substâncias. Também vale a pena salientar que continuamos a ter um número de casos mais elevado na taxa entre os 25 e os 60 e tal anos. Como a SIDA demora dez, doze ou quinze anos a aparecer, significa que muitas das pessoas que aparecem infectadas aos 25 ou 30 anos se infectaram na adolescência. O que se está a passar é que houve uma mudança de hábitos das drogas injectáveis para os comprimidos e cocaína. Há menor número de heroinómanos, menos droga intervenosa, menos injecções, menos casos de SIDA. Passámos a ter outras patologias, como é evidente. JM - Como é que estamos a nível de tratamento?MC - Hoje, conhece-se melhor a infecção VIH. Já não se espera tanto tempo para começar a tratar as pessoas. Percebeu-se que quanto mais cedo se começar o tratamento, melhor. O tratamento, agora, diz-se que deve ser precoce, intensivo e de associação medicamentosa.Por outro lado, o estudo genético das pessoas infectadas permite estudar os casos de vírus resistentes à terapêutica e, por outro, permite evitar reacções secundárias desagradáveis com alguns medicamentos. Há pessoas que reagem muito mal a um medicamento e hoje já podemos, por estudos genéticos, determinar isso.Prevenção integrada é a soluçãoUm outro progresso que vale a pena difundir é que a prevenção deixou de ser só esta coisa de informar as pessoas sobre como é que o vírus passa de uma pessoa para as outras. O vírus só passa por via sexual, por via materno-infantil ou injectado. Não há outras maneiras de o vírus penetrar. Pensava-se que bastava dizer às pessoas para usar o preservativo, não terem relações com desconhecidos, etc. Não. Hoje em dia, defende-se a prevenção integrada. É preciso, ao mesmo tempo, informar, educar para a sexualidade, fomentar o uso do preservativo, desenvolver a circuncisão em pessoas que têm um prepúcio que precisa de ser operado, fazer consultas de diagnóstico e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, sem ser a SIDA: a sífilis, o herpes e outras doenças que aumentam a probabilidade de ter SIDA e fazer o tratamento precoce e generalizado, bem como o acompanhamento, das pessoas infectadas. A prevenção é isto. Se não for tudo isto feito ao mesmo tempo não estamos a prevenir. Basta que não tratemos todas as pessoas infectadas para haver imensas pessoas com virémias muito altas e com grande probabilidade de infectar os outros.Compromisso internacional a cumprir até 2010Há uma espécie de compromisso internacional, que não tem sido cumprido, e que foi reafirmado no Congresso do México, que é o de que, até 2010, todas as pessoas tenham acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Podemos dizer que é um bocado utópico, mas internacionalmente foi esse o desejo mais uma vez expresso.Outro aspecto que vale a pena salientar é que existem em todos os países e também em Portugal, uma subavaliação das pessoas infectadas, heterossexuais e bissexuais. Há muito mais pessoas infectadas do que nós julgamos, sobretudo na parte hetero e bissexual. A maior parte das vezes não se detecta esse risco acrescentado das pessoas. Toxicodependentes tuberculose e SIDAOutro aspecto a salientar é o dos toxicodependentes. Queria chamar a atenção para que os toxicodependentes, sobretudo os por via intervenosa, são um risco enorme, não só para eles, que não são tratados, diagnosticados e apoiados, como para a população em geral. Porque o número de indivíduos toxicodependentes com tuberculose é elevadíssimo. E a tuberculose não se pega na cama. Pega-se em qualquer lado! Sublinho aqui a enorme importância que se tem de dar aos toxicodependentes. Não só pelo que eles sofrem, pelo que eles gastam, pelo risco que a sociedade tem nos seus distúrbios, nos seus comportamentos, mas porque eles são veículo também de transmissão de muitas doenças, designadamente, hepatites e tuberculose. Foi feito um alerta mundial em relação a isto.Um outro aspecto que quero sublinhar: a tuberculose está casada com a SIDA. O número de pessoas com infecção VIH que tem tuberculose ultrapassa os 50 por cento. É uma taxa elevadíssima.Deveremos procurar os toxicodependentes, os seropositivos, agarrá-los (no melhor sentido) e estudá-los de modo a verificar se eles têm uma infecção destas, com perigo para eles e para a população. Esse é que é o problema. Não é o VIH! O VIH passa-se na intimidade de uma relação sexual, ou da mãe para o filho ou por picada. Mas nunca neste convívio. E neste convívio, hoje, a tuberculose e a hepatite são particularmente perigosas.JM — E a nível de apoios estatais?MC — Há carências enormes. Porque repare: a infecção VIH não é só ter o vírus no sangue. A infecção produz no indivíduo infectado, mesmo sem a expressão logo da doença, uma enorme depressão, uma enorme sensação de angústia, de ansiedade. As pessoas ficam muito marcadas em relação à sua capacidade de trabalhar, de conviver. A vida sofre um abalo brutal. E até que as pessoas se restabeleçam, passa muito tempo. Faltam apoios psicológicos. Faltam apoios de suporte social, até porque muitos destes indivíduos deixam de trabalhar, muitas vezes erradamente. Há carências de medicamentos. Muitos deles nem são comparticipados. Mesmo os genéricos, muitos não são comparticipados.Portanto, as pessoas infectadas, muitas das quais pertencem a classes socioeconómicas muito baixas e têm carências brutais, necessitariam de que fossem estudadas as condições de melhor apoio a nível jurídico, social, económico, familiar. Há na verdade, a necessidade de um investimento muito maior.A solução é diagnosticar cedo, tratar com ferocidade e apoiar os doentes e as famílias.Há uma coisa que quero salientar: não é preciso ter uma relação coital, isto é, sexo, relação física para haver o risco de transmissão de muitas doenças do grupo das sexualmente transmissíveis. Mesmo sem haver uma relação sexual. Refiro-me ao herpes, ao vírus do Papiloma, à sífilis, à Hepatite B, à tuberculose. Todas estas infecções e doenças podem-se ter por um relacionamento amoroso que não implique penetração sexual. Os jovens têm de saber isto, porque muitos deles não têm ainda relações de penetração — têm carinhos, contactos e, por vezes, contagiam-se uns aos outros — por vezes com vírus indutores do cancro, como é o caso do vírus do Papiloma.Hoje, as pessoas seropositivas e infectadas, que se comecem a tratar a tempo, com os novos medicamentos, têm uma sobrevida praticamente igual à das pessoas do seu género e da sua idade que não estão infectadas. Quer dizer, que a infecção por VIH, se tratada a tempo, pode não induzir morte mais precoce, desde que o indivíduo seja diagnosticado a tempo, seja acompanhado, faça tratamentos correctos, seja controlado. A pessoa que tenha tido comportamentos de risco ou admita que possa estar infectada, deve ir ao médico e pedir um teste de sida. Hoje os testes são muito sensíveis, têm uma garantia de correcção elevadíssima e muitas vezes já após três semanas de um contacto podemos ter testes fiáveis, seguros, para poder dizer que a pessoa tem o vírus. É um teste muitíssimo simples. É gratuito, a nível do Serviço Nacional de Saúde. Passem palavra: quem pensar que pode ter sido infectado não hesite, vá ao seu médico peça para fazer um teste de VIH e deixe-se viver como se não tivesse o vírus da SIDA, sem infectar os outros e com os tratamentos pode viver como outra pessoa qualquer.

Anete Marques Joaquim

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